rubro.

Queria o seu coração. E soube no momento em que te vi: cansada da viagem de duas horas, numa manhã cedo num aeroporto imundo e lotado. A mais linda que eu já havia postos meus olhos, a mais bela, sem dúvidas. E eu queria seu coração. Quando nossas mãos se tocaram pela primeira vez, e senti a textura de sua pele contra a minha, a vibração da energia entre nossos corpos era tanta que senti vontade de me atirar contra você: beijar-te com tamanha ferocidade que sangraria nossos lábios e sentindo o sangue em nossa saliva misturada, beijaríamos ainda mais e fundiríamos uma com a outra, tornando-se apenas uma. E quando nos beijamos pela primeira vez, naquele quarto de hotel caro, cujo dinheiro não tínhamos para bancar, senti meu ser transcender de alegria e paixão. Tamanha era minha fome por você, devorei-te por inteira: seus lábios, seu pescoço, seus olhos, nariz. Tamanha era sua fome por mim, devorou-me por inteira: da cabeça aos pés, de mim, sobrou-me nada. E o que é o amor senão a fome irremediável pelo toque da outra pessoa, pelas carícias, fome da pessoa, dela apenas. Inteirar-se, completar-se. E por isso, eu queria seu coração. Ter o que te deixa viva, ser o que te deixa viva, dar-te vida e ser sua vida. Consumir aquilo que de mais precioso tem em seu corpo para, finalmente, consumir sua alma e tornar-me, com você, uma única célula, um único ser.
Um longo e árduo caminho até lá – você me olha, com esse jeitinho, sorrindo em minha direção. Eu faço carinho em seu cabelo, suas bochechas, seu nariz. Te enxergo, te toco. Te moldo como minha, seguro-a com as palmas das minhas mãos e aperto para nunca mais sair. Nunca – ah, como o tempo é aliado e inimigo: te quero para sempre, para que nunca me deixes! Sempre. Nunca. Quão intenso e poderoso é o tempo-amor. O tempo que te faz minha, que te faz sua, que te faz do mundo, e volta para mim, com a mesma energia. Volta para mim como passarinho adestrado, canta, esgoela-se em um agudo infinito implorando pela gaiola, pelo meu amor – o único que conheces. E eu te cuido, te cuido nesta gaiola de margaridas espinhentas. Cuido-te, em especial, por uma única razão: quero teu coração. E querer teu coração significa temperá-lo, salgá-lo, tê-lo para mim de inúmeras maneiras. E ali, naquela cama de hotel, em um banquete preparado apenas para nós duas, eu a amo como nunca amei ninguém. Nada disso era, porém, suficiente: eu precisava de seu coração. Queria sentir suas artérias entre meus dentes, o pulsar em minha língua, devorando o mais precioso de seu corpo, tendo-o apenas para mim. Você apenas para mim.
Você levantou e me pegou pela mão, colocou-me para dançar em um passo, dois passos, três, se tivéssemos coragem. E eu me enleava em você, entrelaçada em seus passos, seu corpo, movimentos. Seu perfume consumia meu ser, impregnando em minha alma para que eu nunca mais a esqueça – nunca! E como poderia esquecer? A mulher que organizou minha loucura, abriu uma penumbra na minha maldita escuridão e acompanha-me na solitude. Como esquecer quem, em um folie à deux, entregou seu coração numa bandeja de rosas para que eu o consumisse tal qual um lobo a um cordeiro? Consumir e ser consumida pelo mar vermelho de sangue derramado por um amor intenso, forte, exagerado. E banhávamos juntas no sangue do seu coração, uma vez devorado por mim. Você acariciava minhas costas, lavava meu cabelo. Vermelho, vermelho rubro. Eu colocava seus dedos em minha boca, observando-a, limpando cada gota do sangue. Mordia. E você me beijava com ferocidade, puxando meu cabelo, marcando meu pescoço. Eu gemia com seu toque, e finalmente éramos uma. Não éramos? Deitávamos sob o mar vermelho, você entre minhas pernas, eu com minhas costas arqueadas, segurando seus cabelos, manchados de vermelho. Tudo era vermelho. Nós éramos vermelho. Não havia nada que não fosse nós.

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