“Pegue a minha mão!” ela me disse, estendendo-me sua delicada mão, que diferente da minha, ainda se encontrava sem um pingo de água.
“Oh, não! Eu estou morrendo nessa lagoa, tão, tão funda!” usava um tom melodramático, completamente fingido, mas ela acreditava em mim. Uma bobinha. Uma bobinha extraordinariamente maravilhosa.
“Deixa disso, Conrado!” ela continuava com sua mão estendida, mas agora sua expressão, antes preocupada, deixava escapar um leve sorriso no canto de seus lábios, e seus olhos (de um verde acinzentado, tão lindo e raro quanto ela) estavam mais brilhantes.
Puxei ela para perto de mim, fazendo-a cair na lagoa, respingando água para todos os lados, molhando seu cabelo castanho e toda sua pele branca. Porém, de modo nada atraente, ela tirava seus cabelos de seu rosto, cuspindo a água que engolira ao cair.
“Eu te odeio, Conrado!” eu ria. Eu ria, pois era adorável.
O domingo estava insuportavelmente quente. No céu, nenhuma nuvem a vista e o sol tinha toda a liberdade de ser a única estrela do dia, além, claro, de Alice. Eu tinha a tirado às pressas de sua casa para passar o dia numa lagoa não muito longe de onde moramos, que há pouco, em uma de minhas noites de insônia, eu havia descoberto. Felizmente, ninguém estava no local.
Estendemos uma toalha de piquenique no chão e deitamos em baixo das grandiosas árvores que cercavam a lagoa. A luz do sol se intrometia entre as folhas das copas das árvores, de modo que, se cerrássemos nossos olhos, enxergaríamos luzes coloridas entre nossos cílios. Lembro de olhar para Alice durante um longo período de tempo, enquanto ela, com os olhos fechados, bronzeava-se.
“Pff. Eu não preciso disso.” disse, em tom de brincadeira, piscando para ela. “Minha pele já é todinha beijada pelo sol desde que nasci. Sou um cara sortudo.” esse comentário a fez mostrar a língua para mim.
Em certo momento do dia, peguei em sua mão. Era macia e o contraste dos tons de nossa pele me fez rir.
A gente combinava. Éramos perfeitos um para o outro: tínhamos o mesmo gosto musical, o mesmo filme favorito, ríamos das mesmas coisas, nos beijávamos na mesma intensidade. Poderíamos ter casado, ter uma casa no campo com vários filhos e cachorros. Era o que eu pensava naquela tarde. E até hoje não entendo o porquê fiz o que fiz.
“Vamos ver quem consegue ficar mais tempo embaixo d’água, hm?” Ela disse, com um sorriso sacana nos lábios. É óbvio que ela ganharia, afinal, Alice praticara natação durante anos.
Mas aceitei sua oferta. Era uma de nossas particularidades: competir. Competíamos sobre tudo, o tempo todo. Óbvio, era tudo brincadeira. Ao menos, deveria ser.
A partir daqui tudo o que vem à minha memória é desfocado e borrado. Lembro dos raios de sol refletindo na água e seu cabelo flutuando. Lembro de seu sorriso antes de tapar o nariz com os dedos e mergulhar na água. Lembro de pensar “ual, eu realmente a amo”. Lembro da sensação de entrar na água, prendendo minha respiração, escutando os meus batimentos cardíacos que ecoavam pelo lago. A água gelada cobrindo meu corpo. E longe, sons abafados. Tão longe, mas tão perto. Bolhas formando-se na superfície, e a textura de cabelos castanhos entre meus dedos, as pequenas ondas que se formavam pela agitação de alguém que buscava por ar.
O sol pareceu ter se escondido por uns minutos, o vento cantava uma ópera assustadora em meus ouvidos, misturando-se com meu coração que batia lento, como passos aproximando-se de mim, lento… lento…
E por fim, a súbita calmaria que se instaurou pelo local. Voltei a respirar, a olhar ao meu redor, a escutar os passarinhos que cantavam de longe. E nada, absolutamente nada mudou. Mas agora o sol era testemunha, as árvores eram testemunhas, o lago era testemunha de que meu amor de nada valia se minhas mãos haviam me traído. E eu as encarava. Encarava minhas mãos por não conseguir encarar Alice. Encarava minhas mãos, pois não as sentia mais como parte de mim.
“Seu idiota! Por que você fez isso?”, ela perguntaria, brava, e bateria em meu peito, saindo da água. Se ela estivesse viva.
E eu a alcançaria. Faria cócegas. Beijaria seu rosto inúmeras vezes. Abraçaria sua cintura. E tudo ficaria bem.
Se ela estivesse viva.
