A lua que me seguia

— Segui-me! Como a uma stalker!

— Quem, Donato?

— A lua!

Estavam caminhando pela Rue Berton, rua perto de onde estavam hospedados e naquela hora da noite, não era de se estranhar que a rua estivesse deserta. E, de fato, a lua se apresentava enorme no melado escuro do céu. Alana riu do que seu colega disse. Estava um pouco zonza por causa do Ti-punch que havia tomado há não muito tempo.

— Deixa de nóia, Nato!

Donato, em contrapartida, encontrava-se um tanto atordoado. Não havia bebido, estava sóbrio. Pelo menos, era o que Alana pensava. Seus olhos estavam quase do tamanho da lua, e suas mãos moviam-se freneticamente ao tentar explicar o que se passava em sua cabeça.

— Não, Alana! Olhe. Ela tem olhos imensos, caminha lentamente atrás de nós, sorrateira, mas é tão grande que não consegue se esconder. — Donato pegou na mão de sua amiga Alana — Eu sinto seus olhos em mim, Alana.

— Você está me assustando, Nato, pare com isso… — Ela desvencilhou suas mãos da de Donato, andando um pouco mais afastada. O amigo, continuava a olhar para trás obsessivamente.

— Não é estranho que não haja ninguém na rua? Apenas nós e… ela.

Alana respirou fundo. Apesar de estar vendo cores demais e sentir seu ao redor se movimentar lentamente, estava sã o suficiente para não acreditar em bufunfas do que seu colega estava dizendo. Sentia fome, frio, e queria sua namorada.

Donato e Alana embarcaram em uma viagem à França para uma reunião de negócios da empresa onde trabalhavam. Escolheram-nos por serem dedicados e, também, ter um laço mais parecido com amizade dentro do trabalho. Mas Alana vinha se sentindo sozinha, questionando seu laço com seu colega. Nessa noite, decidiram dar uma volta pela região para conhecer um pouco mais de Paris, pararam em um barzinho, ela pedira um Ti-punch, ele pedira uma Coca-Cola Zero. Conversaram bastante, riram muito, e, a princípio, a noite estava tão tranquila e calma como uma lagoa em dia sem vento. Tudo começou quando saíram do bar:

— Estamos sendo perseguidos. Eu tô sendo perseguido.

— Como assim, Donato?

— Não olhe para trás agora, mas ela está nos olhando muito atentamente, não sei o que quer fazer.

— Donato?

— Segui-me! Como a uma stalker!

E o resto fora contado aqui. Alana, porém, olhava para trás, olhava para o céu, e tudo o que via era ela: lua cheia iluminando a noite sem estrelas.

— Donato, — para tentar acalmá-lo, a moça tentou entrar na dele — eu acho que ela está a cuidar de nós. — sorriu amarelo — Veja, ela está iluminando uma noite que, sem ela, ficaria completamente um breu. Ela vai nos cuidar até o sol chegar, ok?

— Você não entende, Alana! — Ele levantou sua voz, seus olhos estavam marejados, como quem estivesse prestes a chorar (de raiva ou de angústia). Passava os dedos por seus fios de cabelos castanhos e encaracolados, em frustração com sua amiga.

Acontece que Donato tinha uma dívida.

Uma grande.

Era óbvio que isso aconteceria um dia. Ele só não contava que fosse em Paris no ano de 2026, ano em que completaria 30 anos, e iria, finalmente, casar! Com a mulher de sua vida! É claro, que tirariam tudo isso dele. É claro que ela viria até ele em uma rua deserta de Paris, no ano de 2026. Era certo que isso aconteceria. Como pode ser tão burro em não ver os sinais? Durante toda a viagem, ela o espionara. Nessa noite, no entanto, que decidira aproximar-se dele, enxergá-lo com mais profundidade. Alana não entendia, e nunca conseguiria entender. Nunca faria tamanha dívida. Nunca se enrolaria com o universo – Deus! Com o universo! Como fora ele, aos 23, conseguir tamanho feitio?

— Donato? Por que eu não entendo? Me explica… — Alana estava tentando ser empática, após ver o desespero no olhar de seu colega, decidiu tentar compreendê-lo.

— Você nunca entenderia, nunca, nunca. Ela está atrás de mim! Sempre esteve, Alana.

A lua, em sua posição, estava, sim, a segui-lo. Com suas pernas finas descia a Rue Berton vagarosamente, acompanhando cada passo de Donato. Seus olhos como crateras fitava-o intensamente, sugando-o a alma.

— Ela está… Ela está… — Donato desatara-se a chorar, acocorando-se no chão.

Alana, desesperada, olhava para os lados na intenção de chamar por ajuda, mas ninguém estava ali. Apenas ela. E agora a via: seus olhos gigantes, seu brilho vigoroso, sua presença notável e discreta. Estava ali. E movia-se para perto de seu colega. Sem saber o que fazer, de boca aberta, com os olhos, também, marejados, Alana observava a cena: o brilho da lua que se intensificou ao abraçar Donato. E abraçava de modo que todo ele desaparecia – e desapareceu, de fato, juntamente a lua, que estava novamente em seu lugar.

Em choque, Alana correu para o hotel, sem olhar para trás – nem mesmo para cima. E não sabia ela, ainda, mas agora teria, também, uma dívida.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora