O aguardo

Aguardava.

Sentada numa calçada de uma casa aleatória da rua, num sol rachando sobre sua cabeça. Limpava os óculos de minuto em minuto e praguejava baixo por não ter trazido consigo algo para se proteger do sol. “Pelo menos passei protetor solar”, pensara.

A rua era calma, poucas pessoas passavam, quase nenhum veículo. Apesar de ser repleta de casas, raramente via-se alguém do lado de fora, as pessoas eram realmente muito reclusas. “Será que são amigos?”, perguntava-se a moça, “será que almoçam na casa um do outro? Ou juntam-se no jardim para conversar sobre suas filosofias ou sobre a falta de profundidade de suas vidas? Será que nunca, em hipótese alguma, pensaram em compartilhar a vida?”. Observava o gramado das casas – perfeitamente verde. As cores banhavam as paredes perfeitamente de cima abaixo, sem um mísero arranhado. As flores, apesar do deserto da rua, pareciam terem sido regadas recentemente e estavam devidamente coloridas, e seus perfumes exalavam de tal maneira que ali, sentada em uma das calçadas, embriagava-se com o cheiro – no plural.

“Deveria ter trazido um livro”, pensara, “mas como eu saberia que demoraria tanto? Como poderia, eu, saber que aguardar é trabalho árduo e que as vezes é necessário ocupar-se de outras coisas? Aguardo porque foi a única coisa destinada a mim. Veja só, é tudo o que sei – sentar e esperar, sem ao menos um livro, um celular! Sentar e esperar e sentir o cheiro das flores e observar a grama verde dos vizinhos. Se ao menos um cachorro com a cor de meu cabelo passasse e em um momento de identificação nos olhássemos… Mas,” riu consigo mesma, “isso não é um conto de Lispector.” Alice, vamos chamá-la assim, era uma leitura ávida de Clarice Lispector. Logo com esse pensamento, inclinou-se a pensar na filosofia de G.H, e a um besouro no chão, intitulou-o sua barata. Oh, besouro, você não corre perigo. A via-sacra de Alice não começara e ela está longe de ressuscitar em sua carne.

Um idoso, carregando uma sacola de couro, em passos lentos vinha cruzando a estrada.

— Filha, há quanto tempo estás aí? Sabes que hora é?

— Oi, é… Não sei. Para ambas as perguntas. Que cabeça a minha! — Bateu com sua mão em sua testa, de maneira até bem violenta, fazendo o senhorzinho se assustar. — Esqueci o relógio!

Ele riu docemente de seu desastre. Seus olhos, que eram de um azul-céu quase transparente, pequenavam-se e seu rosto se contorcia em rugas quando ria.

— Não sejas boba, menina… Você pode ajudar em meu jardim, que achas?

Alice refletiu por um momento… Estava no ócio, nada a fazer. No entanto, precisava aguardar. E se chegasse? De repente? E ela não estivesse aqui? Como explicaria? Como conseguiria, como teria coragem, de aguardar novamente? Teria de matar-se! Era a única solução: perdendo a oportunidade, matar-se-ia! Pois já não haveria mais razões para sentar naquela calçada, e observar os mesmos verdes dos gramados dos vizinhos, e sentir os mesmos perfumes das mesmas flores, e- Não! Não podia!

— Desculpa, não posso, tenho de aguardar.

— Mas que isso que tanto aguardas? Estás aí há… tanto tempo!

Alice refletiu novamente. Que isso que tanto aguarda? Aguardava por uma oportunidade de… de que seria? Fora destinada a isso – a aguardar. E não! De maneira alguma poderia simplesmente parar de aguardar. Aquele era seu momento. Seria, quando finalmente chegasse! Até lá… aguardaria.

— Ora, Barnabás, — dissera o senhor — não se deixes levar por essa ida em vão ao castelo. — Ele a encarou por um momento, vendo que não a convencia, pegou sua sacola e saiu rua afora, até não estar mais no campo de visão de Alice.

Esta, suspirava pesadamente. O sol estava lhe deixando tonta! Quando será que chegaria? Seu peito fechava-se em angústia, seus olhos lacrimejavam mar. Levava sua mão ao seu pescoço, de maneira vã tentando abrir a garganta que trancava-se com seu choro. E se não chegasse? E se nunca chegasse e seu único destino fosse esperar – para sempre? Naquela rua sem vida, naquele verde, naqueles perfumes. “Não posso fazer nada”, pensou. “Tenho que continuar aguardando. Meu momento vai chegar, eu sei que vai. Não irão me deixar na mão.” Respirava fundo. Inspirava e expirava. Manteria a calma. Ela ainda tinha um longo caminho – sentada – a percorrer.

— Talvez o senhor tenha razão e você possa fazer algo em meio tempo. — Falou uma voz miúda, tão miúda que ela não decifrara de onde viera. — Aqui embaixo. O besouro que você pensou em comer caso você se destruísse como humano e ressuscitasse como matéria neutra.

Olhou para baixo e lá estava: o besouro. Verde escuro, iridescente. Se olhasse bem, parecia apenas parado em sua frente, poderia pisoteá-lo se fosse tão malvada! Mas era apenas Alice. Pegou-o gentilmente em sua mão, para poder melhor conversar.

— O que você quer dizer?

— Você está esperando por… isso há muito tempo. Talvez fosse legal fazer algo. Cuidar dos jardins, ou em contrapartida, me ajudar a destruir o jardim. Poderia correr pela estrada, sabe, fazer exercício. Poderia colher flores. Poderia até mesmo observar as nuvens. Mas você só fica parada. Aguardando.

A moça pensou, e pensou. Todas as opções eram legais – com exceção de destruir o jardim – e eram coisas que poderia, sim, fazer. O que a impedia? Observar as nuvens seria tão divertido! Mas… e se distraísse-a? E se perdesse exatamente por ser boba vendo as nuvens ou colhendo flores? Não podia deixar que nenhuma distração a impedisse de… aguardar. Portanto, aquele besouro era tolo e não sabia de nada. Aliás, o que um besouro saberia sobre esperar? Ele tem tudo o que precisa em sua pequena vida – tem os jardins para correr livre e destruir como quiser, tem o céu para voar, a grama para se esconder, folhas e frutos para se alimentar, precisa esperar pelo que? Por nada! Está tudo ali.

— Desculpe-me, senhor besouro, preciso aguardar… logo o momento chegará, você vai ver! — Colocou-o novamente ao chão, e ele com um suspiro miúdo, pôs-se a voar.

E Alice se ajeitou na calçada, mãos acima do olho para se proteger do sol. Voltava a observar o gramado – quantos besouros existiam ali? E voltava a sentir o perfume das flores. E julgar perfeita a pintura das paredes. E, principalmente, voltou a, em paranoia, vigiar a rua. Logo, chegaria.

Aguardava.

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