Quando caí a chuva, a vida volta a ser o que era,

A vida volta a ser o que era quando caí a chuva escandalosa nos telhados de casa, parecendo meteoros aterrizando na terra sem dó, como fizera com os dinossauros. Mas a vida volta a ser o que era. Quando o raio brilha de longe e o estrondoso trovão se aproxima, fazendo tremer o chão. E, enfim, a vida volta a ser o que era.

Lisbela brincava lá fora quando a chuva caíra violentamente em seu quintal. Pingos que lhe queimavam a pele e doía ao aterrizar no corpo da moça. Raios começaram a cortar o céu não muito tempo depois, fazendo iluminar toda a rua, encantadoramente.

“Queria que um raio caísse em meu quintal!”, pensara.

Sua mãe começou a chamar por seu nome, implorando para que saísse de tamanha tempestade que estava se formando. Dona Margarete era uma mulher forte, estava criando Lisbela sozinha desde que esta tinha 7 anos. Agora, com 11, Margarete já esperava de sua filha, atitudes mais racionais e maduras – o que, claramente, não acontecia.

Caminhou lentamente para a casa, sentindo arder os pingos que nela caíam, e como uma masoquista, Lisbela gostava de sentir sua pele se desfazendo em água-lava que corria quente por seu corpo, refrescando-a de uma maneira entorpecente. Observava as gotas rolando em seu braço, segurava-as em suas mãos e espalhava-as. Sentia a água escorrer em seu rosto e tinha o impulso de esfregá-lo com suas mãos. Mas deixava. Deixava que as gotas fluíssem a seu modo, fazendo cócegas em sua face.

Dona Margarete continuava a clamar pela filha, a tempestade já se alastrara, os raios estavam cada vez mais frequentes, os trovões mexiam a terra como terremotos e a chuva engrossara-se.

Pulando de poça em poça, Lisbela não se preocupava nem um pouco com a tempestade a seu redor. Na verdade, já estava tão acostumada que se tornara a própria tempestade – raios e trovões pertenciam à sua existência assim como oxigênio e água.

E nesse momento pousou – pousou ali em seu quintal, do seu ladinho, uma luz tão forte que poderia cegar, uma força estrondosa que fazia tremer tudo. Um raio. E a luz era tão forte, e seu brilho tão radiante que Lisbela, sendo uma criança curiosa, não conseguira manter suas mãos em seu corpo, devagar alcançou o raio – uma vez que já era ela própria – e com suas mãos tocou na descarga elétrica, que remexeu todo seu corpo e fez a iluminar também: dois raios. Dois raios no quintal de dona Margarete, que deixou a casa para ver o fenômeno. E logo quando sumiu, veio o trovão, mais alto que tambor – similar aos gritos de Lisbela quando estava a brincar.

E sumindo tudo, sumira também Lisbela.

Virara tempestade. Raio e trovão. Virara a chuva que caía freneticamente e queimava a pele de sua mãe. Virara as árvores e os rios e as nuvens.

Virara o sol, que rindo, apareceria quando a tempestade fosse embora.

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