Véspera de Natal.

24 de dezembro.

Véspera de Natal. Estamos próximos ao Ano Novo. Toda essa festança sobre vida nova e transformação. Besteira. As ruas lá fora estão enfeitadas com bonecos de neve, trenós e papais noéis vestindo casacos de lã. Mas moramos no Brasil, aqui não neva, e provavelmente, se o papai noel for real, e de fato vestir tais roupas, morrerá derretido no nosso calor de 40º.

O apartamento estava uma bagunça: livros, e jornais espalhados por toda sala de estar, apenas uma luminária iluminava o cômodo, e Waltz of the Flowers, de Tchaikovsky tocava em um rádio antigo que roubara de minha mãe quando mais nova. Na pia da cozinha, algumas louças sujas da minha janta não saudável. Não havia, em nenhum lugar nesse apartamento, decorações condizentes com a época do ano. Eu detestava o natal.

Deitada no chão da sala, recorto figuras, imagens que, esteticamente, me dão prazer, e sublinho em jornais e livros frases que me chamam atenção. Algumas reportagens nos jornais informam o perigo nas ruas da cidade. Recorto-as também, colando em meu caderno. Aparentemente, haviam pessoas desaparecendo, e, quando encontradas, já estavam sem vida. Três assassinatos em uma semana. Os jornais estavam enfatizando (até demais) o fato de ter um assassino em série na cidade. Besteira.

“Nunca acontece nada de interessante nessa cidade, aí, pra vender, eles querem empurrar uns negócios de TV Show americanos nos jornais. E vende, né?” falei, direcionando-me a minha amiga que passava essa noite comigo.

Pela primeira vez em alguns anos, eu não estava passando a noite de natal sozinha. Comigo, estava Lucia, minha amiga. Tomávamos vinho, enquanto eu lia e sublinhava frases, recortava e colava notícias. Lucia, porém, ainda não tinha tocado em seu vinho. Mas ela nunca fora de beber, de qualquer maneira.

Sentava-se ao meu lado no chão da sala de estar, seu vestido branco de crochê combinava com sua personalidade doce e delicada. Lucia era uma mulher atraente, e não foram poucas as vezes em que senti vontade de beijá-la. Seus cabelos loiros, caiam suave em seus ombros e seu sorriso era de uma simpatia imensa. Você simplesmente não conseguia não gostar dela.

Há alguns momentos atrás, trocamos alguns presentes. Eu lhe dei uma pulseira de ouro, falei para ela que reluzia tal qual sua energia. Ela sorriu e corou, dando-me de presente uma edição linda de Crime e Castigo, de Dostoiévski, livro que tínhamos lido na graduação, pelo qual me apaixonei e passei um mês inteiro citando-o e comentando sobre.

Peguei em sua mão, olhando-a nos olhos. Nesse exato momento, começa a tocar Valse Sentimentale, também de Tchaikovsky. Levantamos nós duas, e sob a luz da luminária e da lua que crescia na sacada de meu apartamento, dançamos. Dançamos apaixonadamente, e por um momento, pensei em dizer o quanto a amava. Todavia, seus lábios pálidos atraiam-me, e ao tocar seu rosto, impressionei-me com tamanha maciez. Lucia era inteiramente delicada, fazendo-me amá-la ainda mais. Acariciando seu rosto, deixei um beijo em seus lábios, que frios, tornaram-se quentes.

Lá fora, dera meia noite. Havia fogos de artifício cortando o céu, e na estrada, sirenes soavam. Mais uma pessoa desaparecera.

Deitamos novamente no chão do apartamento, sorrindo. Acariciei novamente seu rosto, memorizando-o para nunca mais esquecer.

“Tenho sono, Lucia.” falei, abraçando-a para poder dormir. Porém, seu corpo já estava muito gelado, causando-me arrepios. “Sairei amanhã cedo, e logo, logo, eles a buscarão. Não temas.”

Beijei sua bochecha, e dormi tranquila, sabendo que pela manhã, eu seria uma pessoa nova. Afinal, já era 25 de dezembro, e todo o mal feito, renovava-se agora. Eu estava purificada.

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