“A Noite é uma dama bonita, misteriosa, encantadora. Ela faz você se apaixonar por suas belezas, sua capacidade de fazer com que, imerso em tamanha magnificência, você se sinta acolhido, esquecendo-se até mesmo de seu próprio ser.” Diz a sábia árvore. Árvore, esta, que convive com a Noite e com o Dia há muito mais tempo que eu, afinal, ela é tão velha que já não conheço números suficientes para poder dizer-lhe com precisão a sua idade. Já eu, tão nova e inexperiente, a idade pode-se contar com os dedos de uma só mão. “No entanto, pequena jovem, nunca se deve confiar na Noite. Ela trabalha com a ilusão e a manipulação. Quando você menos espera, quando menos aguarda, ela te aprisiona com fortes correntes de ferro.” Continua a aconselhar-me, mas sua voz está longe, quase como eco em minha mente, já que, no horizonte, vejo a primeira estrela a brilhar. “E quão bonito é o brilho de seu olhar?” Pergunto inocentemente, imaginando quão esplêndido deve ser o brilho que a Noite guarda em seus olhos, refletindo toda sua grandeza. “Ah, é lindo!” Responde-me, mas com certa repreensão em suas próprias palavras, ela continua: “Mas como estávamos a falar, você não pode deixar-se enganar por ela! Olhe bem: ela é envolvente, não podemos negar. Todavia, uma vez absorto em suas garras, o medo o consome e você luta para sair, voltar para a paz e a felicidade que apenas o Dia pode proporcionar. A Noite, pequena jovem, a Noite é traiçoeira e egoísta. Gosta de ter atenção para si, pois reconhece toda sua beleza. Ela possui esse amor próprio que ultrapassa os limites do que conhecemos por amor, tornando-se, assim, vaidade.” Vejo juntar-se àquela estrela, outras de igual luminosidade, deixando o ambiente mais bonito. “E o Dia? Por que não falas sobre ele? Estou curiosa…” Seguro meu rosto com uma de minhas mãos; tédio em meu semblante; olhos que vez ou outra passeiam pelo céu; ouvidos que tentam, com o máximo de atenção, captar o que a Árvore está a falar. “Ah, o dia carrega consigo toda a alegria, a radiação de coisas boas e leves que fazem nosso coração se aquecer. É nele que se encontram todos os sorrisos, as risadas, o colorido das flores e batimentos cardíacos produzindo inúmeras emoções. Emoções, sentimentos que apenas humanos, como você, conseguem reproduzir. E são eles que fazem de vocês seres tão únicos, tão especiais…” Assenti, ainda dispersa. “Me parece melhor que a Noite… Mas não tão encantador…” Bocejo. “Ah, mas ele é! Pense só que lindo que é os raios de sol iluminando seus cílios formando pequenos círculos coloridos assim que você piscar!” A Árvore sorri grande. “Ainda não sei…” Ela suspira. “Pequena jovem, escute-me bem. A Noite não é boa companhia. Escute-me, eu, a Árvore que presencia ambos há tanto tempo…” Analiso-a. “Como sabes tanto de sentimentos se és apenas uma árvore? Até então, oca.” Ela me olha indignada. “Como podes me chamar de oca, quando tanto conhecimento tenho a te oferecer? Posso, infelizmente, não possuir sentimentos, nem mesmo criar laços afetivos. Entretanto, já conversei o suficiente com humanos tão perdidos quanto você pra entender que cada um possui uma essência diferente, aconchegante, tão admirável. Essência, essa, que vem do mais fundo de sua alma, lá onde ficam escondidos seus sentimentos.” Dou de ombros. “Não estou perdida.” “Ainda.” O silêncio chega até nós sorrateiro, junto com ele, vejo a Noite. A Noite com seus braços esticados, prontos para me acolher em um abraço. Apaixonada, entrego-me. Escutando o sussurrar repreendedor da Árvore que há pouco conversava comigo. Quando chegou o dia, encontrava-me desabrigada, e a Noite, que me pôs para dormir, não estava mais ali. A Árvore, tampouco. Mas ao olhar para o céu pude ver o sol. “Então é você, Dia?” Falei sorrindo, levantando-me desajeitada. Ao caminhar deparei-me com fragrâncias, sorrisos, cores, pensares, sentimentos todos tão distintos e todos tão amáveis e adoráveis. Me senti, durante todo o percurso, amada. Porém, a Noite foi chegando. A Árvore não estava mais em seu lugar. Se estava, ela não mais se manifestava. Sentia-me, então, sozinha e sem acalento. A Noite mais uma vez me abraçou. Abraço sem paixão, sem amizade, sem conforto, nada parecido com os abraços que o Dia me proporcionou. Logo, acorrentada eu estava, e o medo crescera dentro de mim. Por mais que a escuridão e o brilho da lua fossem atraentes, faltava ainda o amor. O amor que o Dia fez com que eu me apegasse. A felicidade que até pouco tempo não existira. Arrependo-me de não ter seguido os conselhos da sábia árvore, e agora, apaixonada e aterrorizada pela Noite, me encontro sem saída, sem escape e a espera pelo Dia logo torna-se uma eternidade.
(esse foi escrito aos 18 anos)
