Um Gato me disse, certa vez, que minha morte estava próxima. Como eu poderia acreditar nele? Um gatinho frajola cujo nome era fulo e olhos brincalhões, de criança. Todavia, na mesma noite, a Lua concordara com ele. Como poderia, eu, ignorá-la? Deusa de Cancêr, constelação a me reger, Deusa das emoções. Como poderia, eu, ignorá-la? Abracei o Gato, beijei-lhe a fronte, coloquei-o em uma bolsa ecológica, cuja estampa eram gatos artistas, ele se sentiria bem ali. Era loucura, eu sei. Estou certa de que estou ficando louca novamente, e não consigo passar por um desses terríveis momentos mais uma vez. O Gato não cala a boca, eu já entendi. A Lua se calara, mas observava-me friamente lá de cima. Como poderia, eu, ignorá-la? Escrevi para a pessoa que mais amo, “querida, se alguém pudesse ter me salvado, seria você”. Mas não existe salvação, diria o Gato, e a Lua concordaria, balançando-se em afirmação. E agora que já sei, pego as chaves do carro sem hesitar. Dirijo-me ao rio mais próximo, passando por umas duas cidades, ao chegar, nem a Lua me observa mais, adormeceu. O Gato, tagarela, não calara a boca, um mísero minuto. Por fim, desliguei o rádio. Sempre me senti muito conectada com a água. Câncer? Gosto do mar. Sinto-me viva, uma sereia com pernas que podem pular as ondas e sentir a espuma. Gosto muito de rios, cachoeiras, chuveiros, piscinas, chuva, tudo o que tem água. Câncer? Logo que chego, sinto-me um tanto refrescada. O Gato me lembra do porquê estou ali, e não posso parar agora. Cato pequenas pedras, de diversos formatos, bonitas, feias, verdes, marrons, encho os bolso de minha jardineira jeans. Bolsos, esses, que são muito fundos. O Gato continua a falar. Nunca cala a porra da boca. Encho, também, minha bolsa – que está o Gato – com pedras que encontro. Entro no rio com tudo o que tenho, vou até a parte mais funda. Não sei nadar, lembro. Como se isso importasse, o Gato retruca. Alguém já fez isso antes, lembro, sem lembrar exatamente quem. Como se isso importasse, o Gato retruca. Agora é o Sol que bate em minha cabeça. Mas Ele não observa, nem concorda, ou fala. Sinto falta da Lua. E logo a água já alcançava meu pescoço. E logo, já não dava mais pé. E logo, fui puxada para baixo. E o Gato calou a boca, finalmente.
