“me matarei hoje” pensou, enquanto dava um trago no seu cigarro. estava pensando nisso há muito tempo, mas finalmente resolvera: seria hoje. e decidira isso durante o banho, pensando na insignificância de sua vida perante todo o universo – clichê, sabemos. mas a verdade é que ele era muito clichê, muito raso, muito fútil, desprezível. desde a infância nada fizera que fosse de grande importância para o mundo, ou mesmo para ele. seus colegas praticavam esportes, desenhavam, eram artistas, e ele – nada. culpava seus pais por não o terem incentivado o suficiente. mas no auge de seus 30 anos, era meio vergonhoso culpar seus pais. era óbvio que a culpa toda era dele mesmo – nunca se interessara por nada. na faculdade, não participara de projetos de pesquisa, não se esforçara para ser destaque, nada. e essa palavra, sendo honesto com vocês, essa palavra resumia muita coisa da vida dele: nada. era um grande, vasto, imenso, nada. nunca tivera um relacionamento, também. nem grandes amigos, se for para ser sincero. sempre fora um completo zero à esquerda, pra todos. para ele mesmo também. nunca fora protagonista da sua própria vida, de fato. era sempre um figurante, nada nunca importava para ele, nada nunca era válido, nada era pertinente o suficiente para ser vivido, e assim deixou de viver. agora era tarde, já tinha 30 anos e se mataria.
colocou um pouco de whiskey num copo (que outrora era recipiente de massa de tomate, e isso implicaria, inclusive, em uma utilidade e significância para a vasilha de vidro, diferenciando-se, distanciando-se dele mesmo), bebeu um gole e sentiu-o queimar em sua garganta. estava tomando consciência de seu corpo. possuía, afinal, uma garganta, uma boca, uma língua, que podiam degustar um whiskey, conversar conversa fiada, rir – o que raramente fazia. possuía, afinal, um braço para abraçar, mãos para tocar, pernas para correr. possuía um pulmão que se cansava, um coração que trabalhava muito. o único pelo qual não poderia sentir, concretamente, e que guardava um rancor imensurável, era o cérebro. órgão inútil, inútil, inútil. nunca deu-lhe trégua, sempre a pensar demais, cobrar demais, perturbar demais. nunca buscara ajuda, mas sabia que precisava. novamente, ele não era tão importante a esse ponto. por vezes, sabia que alucinava. não admitiria isso para si mesmo, mas sabia que sim. escutava pessoas falando com ele no apartamento – morava sozinho –, observava vultos pelo canto do olho, passeando em seu lar. sabia que era louco. louco, né? é como chamam.
amassava o cigarro no cinzeiro como se sua vida dependesse disso, e logo acendia outro. não queria desperdiçar, pagou por eles com suas últimas moedas. pensara em escrever uma carta, mas novamente, quem leria? não perderia tempo com isso, nem pensar. provavelmente, demorariam dias até encontrar seu corpo morto, pendurado no ventilador de teto da sala, apodrecendo. o cheiro insuportável no apartamento, o whiskey e o cigarro dramaticamente posicionados em cima da mesa, junto com uma caneta e um papel onde se leria “queridos, adeus”, única coisa que escrevera antes de desistir da ideia da carta. quem eram os queridos, afinal?
com mais um trago, decidira ligar a tv, apenas por curiosidade, gostaria de saber sobre o mundo antes de partir – o mundo que não era dele, que nunca o pertencera e nem sequer tentara. sentou-se no sofá. a corda já estava posicionada, atrapalhando a visão da tv, porém, sem deixá-lo de lembrar o que aconteceria. estava decidido, tiraria sua vida. nada daquilo, do mundo, era-lhe viável e estava muito velho para começar a tentar se encaixar em alguma coisa. e ele estava, sim, decidido… mas já eram 23h, e seu programa favorito, o que acompanhava todos os dias, acabara de começar. ele se levantou, mudou a corda de lugar e pensou, “amanhã me matarei”.
