O ar gelado da noite a abraçava, causando-a calafrios. Fora um dia difícil, chato. E, para melhorar sua situação, era o dia mais frio do ano. Ela detestava frio. Sua coluna dói, constantemente fica resfriada, torna-se mais preguiçosa e o mundo fica um pouco menos colorido, contribuindo para seu desânimo deprimente. A moça subia as escadas para sua casa desanimada, cabeça baixa, suspirando pesado. Subira correndo, para logo conseguir se esquentar no conforto de seu lar.
Antes de dirigir para sua casa, passara na de sua mãe. Péssima escolha. Fora recebida com olhares de julgamento e palavras nada amorosas.
— Você deveria se vestir melhor.
Ela forçou um sorriso. Gostava de como estava: saia comprida, preta (obviamente usava uma meia calça por baixo, já que estava muito frio), blusas de lã cobertas por um sobretudo também preto, botas confortáveis e quentes, e um cachecol. Estava confortável e aquecida. Para sua mãe, porém, ela precisava se vestir de modo elegante.
Para falar a verdade, segundo dona Neide, mãe de nossa protagonista, ela precisava (e urgentemente) ser outra pessoa. Sempre fora assim, desde sua infância. Não pode falar muito alto, nem muito baixo; não pode usar roupas muito chamativas e nem muito neutras. E nada, absolutamente nada, estava correto na visão de Neide. Desde seu nascimento, a moça era nada menos que apenas mais um ser humano no mundo: sem qualquer relevância. Principalmente com uma personalidade tão sem graça. É claro que era necessário ensiná-la a ser humana. A comportar-se, a vestir-se, a falar, a rir. Ensinar tudo a ela, para não passar vergonha.
No entanto, ela se enxergava agora como uma poeira. E sem condições de ser racional, fluía de acordo com os mandos de sua mãe. Não tinha muito o que contrariar. Estava triste com sua vida. Não queria ter cursado Direito. Não queria ser advogada. Não queria ser elegante. Gostaria de pintar seu cabelo. Queria viver de arte. Quem sabe, se tivesse coragem de mostrar as telas que pinta naquela sala escura, bem escondida, de sua casa? Não podia. Soaria ridículo. Arte não dá dinheiro. Ninguém mais liga para isso. Além do mais, advocacia era uma profissão renomada. Não poderia reclamar, poderia?
Reclamou.
Em um desconfortável café na sala de estar, com sua voz baixa, receosa, deixou escapar que gostaria de abandonar a carreira de advogada, e tentar outra coisa, algo que a deixasse mais feliz. Sentia suas bochechas ardendo de vergonha, enquanto o olhar de dona Neide a fuzilava impiedosamente. Gritara. Berrara com a filha. Um desgosto! Como não poderia estar feliz? Ela tinha tudo: um ótimo emprego, formara-se na melhor universidade da cidade, possuía uma casa e um carro próprio – presenteada pelos pais quando completou 20 anos. Faltava apenas um marido. Quem sabe filhos. Porém, sua vida era invejável, sim. Não era?
Não. E, honestamente, ela nunca pensara em casar-se. Não gostava muito de homens, não. Nem de mulheres. E nem de qualquer outro gênero humano.
Calou-se. Concordou em um movimento quase invisível. Continuaria com seu papel de poeira. Era apenas uma poeira a viajar o mundo.
Jogou suas chaves em cima da bancada da cozinha. Haviam lágrimas a residir em seus olhos. Não queria deixá-las cair. Seria ridículo. Mas estava em sua casa agora. Com suas regras. E aqui ela poderia deixar seu papel de poeira de lado. Só um pouquinho. Infelizmente, os olhares e palavras de sua mãe a perseguiam em qualquer lugar.
Ao mover-se para seu quarto, jogando pela casa seus sapatos e o cachecol, não percebera um pequeno ser se movendo junto a ela, com suas patinhas asquerosas fazendo barulho de plástico ao arrastar-se pelo chão e suas antenas nojentas acompanhando-a curiosamente. E não era percebida. O que muito assemelhava-se a protagonista: passos quase inaudíveis, forma inumana e desgostável, impercebível para os outros. Irrelevante.
Ela tirou suas roupas com certa ferocidade, fazendo uma nota mental (acredita-se que inconsciente) para comprar roupas novas. Esqueceu de ligar o aquecedor, agora os cabelos de sua perna mal depilada se eriçavam, causando um arrepio doloroso. Xingara baixinho. Mas com o aquecedor ligado, poderia ficar apenas com sua calcinha. Livre. Um ser humano, enfim.
Andava para a cozinha como se flutuasse, cantarolando baixinho. Abriria uma garrafa de vinho, comeria um pacote de salgadinhos e seria isso. Nunca se importara em ser saudável. E seus hábitos estavam bem longes de serem saudáveis. Logicamente, perto de sua mãe, possuía a melhor das alimentações.
A barata continuava a caminhar, rápida e repulsivamente atrás da moça, que não lhe dava a mínima. Estava começando a ficar entediada. Nem quando tentava, de propósito, fazer um barulho maior, a humana percebia. De fato, de todos os humanos, aquela era a mais esquisita.
Com dificuldade, conseguira abrir sua garrafa de vinho. Detestava aquelas fechadas com rolha. Sem mais longas demoras, encheu sua taça, tomando um gole generoso da bebida. Poderia colocar alguma música, se gostasse de barulhos. Porém, preferia aproveitar sua própria companhia ali, sozinha. Ao menos, achava estar sozinha. A barata continuava lá, próxima a ela, atenta a cada movimento.
Deslocando-se para a sala, em um descuido, a moça tropeça e, por pouco, não amassou a barata. Num grito esganiçado, pulou para trás, deixando cair pequenas gotas de vinho no chão.
— O que você está fazendo aqui e como chegou até aqui? — Perguntava, como se o inseto fosse capaz de respondê-la. Esqueceu-se, de novo, sobre sua condição de humana.
A barata se aproximava, limpava para ela as gotinhas de vinho. Era nojenta. Agora conseguia escutar o barulho que fazia com as patas e observar como as antenas se movimentavam. A humana se abaixou, analisando de perto o repulsivo inseto. Será que poderia tocá-la? Suas asas grossas e rígidas cativavam-na em curiosidade. E, surpreendentemente, a barata parecia confortável em sua presença, sem recuar, sem fugir. O silêncio no cômodo se tornou pesado.
— Vou pegar mais vinho e logo sentarei para conversar com você. — Falou, ainda receosa, como se alguém a estivesse ouvindo.
Consegue imaginar? Alguém conversando com uma barata? Isso é ridículo em dimensões horrendas. Não éramos ensinados a odiar esse inseto? A matá-lo, queimá-lo, expulsá-lo de casa, fazendo jus à sua fama de animal asqueroso? Mas, por outra via, não havia sido ela ensinada desde muito nova a se odiar? A querer expulsá-la de si mesma, fazendo jus à sua fama de humano asqueroso?
A barata pareceu compreender. Aquietou-se, observando-a, por entre suas antenas, rodopiar novamente para alcançar a garrafa de vinho, trazendo-a com ela.
Sentou-se ao chão, próxima à barata. Olhava com cautela para todos os lados, quase em um delírio persecutório. Podia afirmar, com certeza, que quem estava a observando – e sabemos aqui que não havia ninguém -, estaria a rir de seus atos. Não era ela a mulher mais estúpida que existia?
— Não é você o inseto mais estúpido que existe? — Falou, sorrindo para a barata.
Não estava bêbada ainda. Mas gostaria de embebedar-se, de sentir o vinho queimando em sua garganta, caminhando para seu cérebro e a entorpecendo. Tentaria ficar bêbada nessa noite. Com sua nova amiga, sim. Qual seria seu nome, inclusive?
— Você tem um nome? — Havia certo carinho em sua voz. Reconhecia-se na barata. E conseguia jurar que ouviu o inseto retornar a pergunta, o que a fez paralisar por um momento.
Tinha ela um nome? Não havia ela sido, durante todo esse tempo, apenas uma poeira? Um asco? Um ser desprezível? Poderia ela ter um nome? Esqueceu-se. Sabia que sua mãe havia a chamado inúmeras vezes por ele, mas não se lembrava agora. Sua mãe sempre a chamou de miserável, grotesca, ridícula… Provavelmente seu nome era algum desses. Não conseguia lembrar. E também não me recordo agora.
— Não precisamos de nome, não é? — Sua taça já estava quase vazia. A garrafa ao seu lado, todavia, estava cheia. — A gente nem presta pra muita coisa mesmo. Me diz você, uma barata! — Ria alto. Bonito. — Qual sua função no ecossistema? Hm? Todos os insetos possuem um objetivo, me conte o seu.
Mais uma vez, a barata retornara a pergunta, tirando nossa protagonista do sério.
— Oras, eu sei lá. Sou completamente inútil. — Deu de ombros, tomando mais um gole da taça, agora cheia novamente. — Minha mãe costumava dizer que eu não tinha vocação nem pra ser cabide! — Rio alto novamente. — Provavelmente não tenho mesmo.
A barata continuava ao seu lado, movimentando apenas suas antenas. Surpreendentemente, aquela humana em questão havia fascinado o inseto. Não sabia direito o que nela era tão atraente. Identificava-se. Conseguia enxergar-se nela. Seus olhos, apesar de redondos, transmitiam a mesma melancolia que os olhos do inseto; seus cabelos eriçados eram como diversas antenas; sua carne não era das mais bonitas e seus dentes eram bem amarelos. Além disso, admitia-se inútil. Admitia-se asquerosa. Sem qualquer superioridade. Tratava-a de igual para igual.
— Tá vendo aquele quadro lá? — A humana apontava para um canto do cômodo, pouco iluminado, mal dava para enxergar de fato o que tinha lá. — Eu pintei. Você não acha bonito, dona barata? Eu acho, até. — Um gole de vinho. Ao beber, ela se distanciava do fato de ter admito que gostara do quadro que sua mãe tanto odiou.
O quadro fora pintado de preto, e era possível distinguir dois olhos tortos e disformes, entre os traços amarronzados também sem forma. O objeto ali desenhado era como um vulto. Meros rabiscos em uma tela preta. Por isso, o inseto se chocou quando, com orgulho, a moça proferiu:
— É meu auto retrato.
Outro gole de vinho.
Estava, na verdade, sentindo um pouco de fome. O vinho já estava a corroer seu estômago. Pensara, então, em comer a barata. Como fizera G.H. Será que também transcenderia? Ou era um ser humano medíocre demais? Inútil demais, insignificante demais. Dali, sua única maneira de transcendência seria por intermédio dos vermes que comeriam seu cadáver podre e fedorento. Tão repugnante quanto seu corpo vivente.
A barata pensara a mesma coisa. Comê-la não seria difícil. E, também, que diferença faria no mundo? Um ser humano assim tão maravilhosamente contemptível…
A garrafa de vinho acabara. Ela soluçava em risos atrapalhados. Estava gostando de conversar com o inseto, que tudo o que fazia era ecoar suas perguntas, fazendo-a criar um monólogo interessante para ela mesma.
— Ela tá ali atrás da cortina, sempre ali. — Dizia, embargada, enquanto apontava desajeitadamente para a janela. — Vá se fuder! — Gritara, assustando a barata. — Não, não você, ela. Só ela.
O inseto estava ficando um pouco entediado. Não sabia mais o que fazer. Não havia ninguém onde a moça apontara, claramente ficara louca.
A moça se sentia dormente. Não apenas seu cérebro, como previa, mas todo o seu corpo. Inteiramente dormente. Questionara ao inseto se ela virara, finalmente, uma poeira. Dessa vez, a barata não retornou sua pergunta. Caminhara mais para perto do corpo dela, suas minúsculas patas fazendo um barulho que, agora, ensurdecia a humana.
— Você quer virar poeira? — Perguntara o inseto.
Sem resposta alguma, a barata se sentiu à vontade para começar sua refeição. Pelos dedos do pé. Roía muito lentamente, de modo a fazer cócegas, arrancando gargalhadas da humana, que não possuía juízo para discernir o que estava a acontecer ali.
— Você deveria começar pelo coração.
— Pelo seu? Não vale a pena.
E de pouco em pouco, a barata roía todo o corpo da humana. Sentindo em sua boca o gosto amargo da carne podre de alguém já morto. De alguém que nunca viveu. Deixava para trás, a cada parte corroída, um rastro mucoso, único vestígio de que, em algum momento, alguém vivera naquele corpo.
A moça, agora com seus olhos semi abertos, conseguia sentir a aspereza do inseto em sua pele, a mucosa que ele produzia misturada a sua carne viva nas partes corroídas. E nunca, em seus tantos anos, sentira-se mais viva do que agora, ao presenciar sua morte.
