Lentamente abro meus olhos. Sinto a pupila dilatando para adaptar-se a escuridão que me envolve. Sentada no chão, minhas mãos abraçam meus joelhos como se fossem a única coisa que me resta. E talvez eu seja a única coisa que me resta. Levanto-me devagar. Minha visão agora está estável, mas ainda não identifico paredes. Nem chão. Muito menos teto. Sinto como se estivesse no vazio.
Sussurros chegam aos meus ouvidos, arrepiando-me. Lembro de um filme de terror que assisti há um tempo. Rio de minha tolice. Isto não é filme de terror, é vida real. Os sussurros se tornam mais altos, ainda assim, incompreensíveis. Pela entonação posso perceber que falam coisas negativas, de modo que prefiro deixar para lá.
Dou alguns passos para a frente – ou para trás, já que, no escuro, não consigo identificar a direção que estou indo -, tomando cuidado para não tropeçar, cair, ou bater em algo ou alguém. Levanto meu braço esquerdo e o estico, logo minhas mãos acham apoio. Uma parede. Sigo em frente, apoiando-me na parede e confiando em meus pequenos e cuidadosos passos.
Os sussurros ficam cada vez mais altos e ainda não consigo compreender, entretanto, minha cabeça dói. Fecho os olhos, respiro fundo. Uma gargalhada alta ecoa em minha mente, fazendo eu exprimir meus olhos com força e levar minhas mãos até minhas orelhas, abafando-as. Não há escapatória. As vozes continuam a gritar. Agora, porém, eu consigo entendê-las, de modo que preferia nunca ter as compreendido. Falam coisas terríveis, riem como bruxas malvadas em histórias infantis. Cada vez mais sinto que explodirei de dor. Tudo parece girar. Elas não param um minuto com a gozação.
Meus pés não sentem mais o chão, todavia quando caio não demora muito até que meu corpo encontre suporte. Em colapso, encolho-me, tentando mais que tudo acordar. Mas eu sei que não é um sonho. Meu peito aperta, sinto em mim a familiaridade da taquicardia, deixando-me sem respirar. Preciso chorar. Preciso pois sinto que talvez aliviaria tudo. Não consigo. As lágrimas morrem em meus olhos, sem sequer dar-se o trabalho de sentir a maciez de minhas bochechas.
De repente, como se o lugar tivesse sido mutado, tudo fica em silêncio e só minha respiração pesada, lutando para continuar a sair, pode ser ouvida. Algo gasoso toca minha mão, fazendo cócegas. Abro os olhos e vejo uma silhueta branca em minha frente. Paz. Ela me levanta, recompõe-me, coloca-me novamente onde eu estava antes a tentar caminhar. Dessa vez, porém, ela me guia em suas mãos, sabendo exatamente onde ir. Confio nela. Besteira.
Antes que pudesse me permitir entregar-me para tal elemento, vi-me a cair em um buraco que parecia sem fim. Ela continuou andando, flutuando, olhando diretamente para mim. Seus risos voltam a ecoar em minha mente. Meu corpo mais uma vez encontra o chão. Inspiro; seguro; expiro. Movimento-me para trás até minhas costas baterem em algo concreto. Volto a minha posição anterior. Eu sou a única coisa que me resta. Abraço-me. Não me concedo a possibilidade de fechar os olhos. Não muito após, escuto um sussurro, dessa vez porém, mais doce e suave, como uma cantiga de ninar. Passos aproximam-se. Em vão, tento camuflar-me a parede. Uma luz com cores vivas e alegres tomam conta do lugar. Não deixo minha visão enfraquecer e continuo a encará-la. Abruptamente ela se move para olhar para mim. Seu sorriso é trivial, como se eu o visse todos os dias. Isso faz com que as lágrimas que guardei rolem em minha face. Eu a reconheço.
“O que você fez de nós?”
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(escrevi este aos 18 anos)
