Quarentena.

durante quarenta dias fui atentada pelo diabo

ele me prometera grandiosidades, reinos glamurosos

riquezas, diamantes, tudo o que sempre sonhei

tentava-me com luxúrias, avarezas e gula

durante quarenta dias eu cedi ao diabo

acatei tudo o que me propunha, todos os sacrilégios

durante quarenta dias vivi em monarquias luxuosas

histórias encantadas, reinos mágicos

o diabo me deixou no quadragésimo primeiro dia

deixou-me ao alento, sem luxos ou dinheiro

deixou-me sozinha, num deserto de areia afiada

há quarenta dias vivo em ermo, com fome e com sede

sem perspectivas de reinado, sem perspectiva de luxúrias

há quarenta dias ando sem rumo: arrependo-me

arrependo-me de ceder ao diabo provocador

aquele o qual deu-me mundos e tirou-os na mesma proporção

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